terça-feira, 26 de outubro de 2010

Sabe o quê?

Às vezes tenho vergonha do que escrevi, às vezes tenho orgulho.

Às vezes acho engraçado ou curioso o que descrevi ou inventei, às vezes acho massante ou insosso.
Quando me leio, às vezes mal me reconheço, e às vezes me reconheço por inteiro.
Às vezes me acho brilhante e às vezes me acho tão bobinho...
Algumas vezes acho podre, outras vezes acho belo.
Às vezes me penso forte e às vezes me penso vazio.
Às vezes tenho aquela convicção de que o que escrevi deveria ser passado para toda a humanidade, outras vezes acho melhor jogar tudo fora e fingir que nunca nada daquilo existiu.
Às vezes sinto-me um grande poeta, noutras fico convicto de minha própria charlatanice.
Sempre que me leio lembro de alguém, de alguma situação que estava ocorrendo na época em que escrevi. Mas às vezes isso não acontece.
Às vezes leio-me com a razão ligada, às vezes permito ler-me em toda emoção.
Às vezes leio-me tal qual verso, e às vezes leio-me enquanto prosa.
Às vezes sinto minha naturalidade real e pulsante quando leio o que escrevi, às vezes percebo com clareza minhas repressões e limitações.
Muitas vezes leio-me livre, poucas vezes leio-me preso.
Às vezes não gosto de me ler, mas normalmente gosto e esta é minha principal motivação para continuar escrevendo.

domingo, 5 de setembro de 2010

Extrapolações sobre o macaco filosófico

À meia-noite de um dia de primavera, um macaco anda sem direção

A chuva cai lenta e suavemente pela selva
Ele olha para as plantas em profusão e percebe o bem que a água lhes faz
Leve tormenta, tenta e cai

O primata estende-se enquanto anda
Abre os braços, pensa-se planta
Agora é a água também seu esplendor
É macaco ou é planta?

Deixa-se molhar, o animal-vegetal
Está em plena natureza com a sintonia
O macaco é a natureza é o macaco

Ele volta então, sua atenção
E para os céus, olha com curiosidade
Observa no alvoroço das luzes cintilantes, a mais linda das beldades
Uma constatação em constelação
Seus pontos, a viajar desde as mais longínquas distâncias
Desde as mais remotas idades
Interpretadas por seu caco, cérebro macaco
Tentação estelar

As luzes piscam humildes
Há o retrovisor d'astro rei
Que naquela noiteua pareciaua bem ajustadoelho
Astro espelho
E por isso mesmo, reluzia imponente
A luz ardente de milhões de bombas de hidrogênio
Ocupando grande acre, lugar de destaque
No pretume pontuado da abóbada celeste
Do hemisfério sul

O macaco gosta da noite
Não se sente mais ameaçado ou afoito
Como seus ancestrais
Caco tomou conta do mundo
E agora não teme mais nada
Exceto a maca, os ais, e medo do próprio
O macaco da noite, há calma
O macaco da chuva, há alma

O macaco está tranqüilo e filosófico
O macaco sou eu

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Este poema conecta-se, intertextualmente, à crônica O macaco filosófico.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

busca infinita

é uma ilusão querer esgotar o universo, explicá-lo totalmente

sintetizar todo o universo em meia-dúzia de regras, isso é impossível
o universo é mais complexo do que sequer podemos imaginar
em todos os seus níveis
da mesma forma que não conseguimos imaginar o muito pequeno ou o muito grande
não conseguimos sequer imaginar o muito complexo
e temos a impressão de compreendê-lo ainda que de forma tosca
ou utilitariamente perfeita

a ciência é feita por seres naturais
de cérebros adaptados ao forrageamento nas savanas africanas
que não são capazes de compreender muito bem
o que vai na escala do minúsculo ou do enorme
ou do complexo
jamais esgotaremos nosso conhecimento sobre o universo
e se alguém, algum dia pensou isso
que agora reflita melhor
e conclua que é melhor esquecer esta antiga idéia

a ciência vai muito além da descrição, ela cria uma mitologia
explicativa que se adequa de forma razoável aos dados observados
a ciência é uma mitologia com base empírica
e esta sua base mutante leva constantemente à revisão da própria mitologia
e a uma nova readequação dos fatos

a ciência é uma forma extremamente interessante de estudo cultural
a ciência é humana de certa forma, há um consenso
há acordo sobre a interpretação das bases empíricas
o dna como código da hereditariedade
mas sabemos que não é só isso
ainda há muito que se descobrir entre os detalhes
infinitos detalhes explicativos

ciência é expressão cultural
podemos ver ali nossos ideais
nossos sonhos, nossos mitos
nosso eterno maravilhamento diante do desconhecido
e nossa angústia em buscar explicações para tudo
está ali também nosso senso de hierarquia
sendo uns melhores que outros
aprendizes e professores
está aí nossas diferenças sociais
em nossos mais prestigiosos journals
escritos sempre em inglês
está ali também a maquiavélica aliança
dos fortes contra os fracos
dos fortes entre si
não existe simplesmente o diálogo em busca do conhecimento que o
empreendimento científico supostamente diz acontecer
as pessoas são presas às suas próprias idéias
e não querem aprender coisa alguma
pois pensam, coitados
que tudo já sabem
mas não sabem, nem jamais saberão

mas nem por isso devemos parar
ah, isso não
devemos alcançar como cientistas
o desejo maduro de entender o universo
da melhor forma possível
mas devemos estar cientes
de que jamais alcançaremos o entendimento
a ciência é uma trajetória
não uma chegada
uma meta
evoca um mistério
que não desvendaremos nunca
mas que devemos sempre
continuar cultivando

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Poema (?) inspirado em uma coluna televisiva de Arnaldo Jabor.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Ode à ciência e ao cosmos

Como pôde, ó homem
Criar toda essa ciência
Esses modelos
Toscos
Modelos
que tanto assim explicam

Como puderam, os senhores
Limitados, injustos
Podres
Nogentos
Fazer tão bom uso das
informações que lhes forneci

Não sou e não existo
Mas tu que és e existe

Deu-te sede
ou pulaste
Criaste um novo tipo de organismo
a evoluir contigo
Transformas-te assim
a informação
e sua história
criaste um novo ente, ser
Mente
Idéias

Serão do homem ou virão doutros
organismos mais antigos
quando?

Em simbiose com ele, novo ente
meme
foste assim
tão longe
ou, por outro lado,
tão longe
Conhecimento e opressão
A ordem que existe
e que pode ser compreendida
ainda que infimamente
por nossos corpomentes
através destes toscos
Modelos
Toscos
É da mais magnífica
soberana
justa
e incompreensível
Beleza

Ci En Ci A






===========

Cosmos
Ordem
Beleza
Caos
Caoos
Caooosos
Caosoidaoido
Caidoajdskjdhflajiod
Cajksdokçahshvchjklavclkqpiop
Cjdkljfqiopjfdakljgklçsjadklgjaklisjgklqjoip

Em todo caos
Há uma ordem
escondida

========

Ou será que não?

segunda-feira, 23 de março de 2009

Doralice, eu te digo

Não racionalize
vc me pede
Mas sou herdeiro
De Descartes
Todos somos lógicos, rôbos
cálculos e circuitos integrados
Mente ali, corpo aqui

Não era a deus que pertencia o futuro?
Agora vens me dizer que pertence a mim
A mim? Eu que o faço?
Maldita seja vc
e toda essa sua corja de ateístas-hedonístas
maldito seja Sartre
a nos dizer
essas verdades
tão convincentes
Talvez fosse melhor
ficar com aquela entidade-brinquedo
inócua, idiota, irresponsável

Eu existencializo

Se meu destino, eu
Faço
Levo regras em consideração
Exemplo: a distância
qu'ela estará de mim
Nos próximos dois
Anos, Terra, Sol, duas voltas

Não vou Amar
Através do Atlântico
É muita água
Espero
que isso não dê em nada
E temo
que isso não dê em nada
E não quero
que isso não dê em nada
E mais uma vez
Temo

Pego cordas e prendo ao chão
meus pés
Eles querem voar
e eu quero deixá-los livres
Mas haverá a bosta
do Atlântico
Nunca gostei de mares
agora entendo por quê
Gosto apenas de rios

Mais corda! Mais corda!
Correntes! Há âncoras ao redor?
Alguém pode amarrá-los, por favor?
Não sei dar bons nós e
mesmo que soubesse
não conseguiria
Aperte ao máximo
Obrigado

Aproveite e diga-a que suma
desapareça, escafeda-se
Não me procure
não m'encontre
e não me esqueça
negarei até o fim que te pedi
para fazê-lo

Logo agora que vou-me embora
terá de ser sempre assim?
Oh, Doralice
Oh, Caymmi
"como é que nós vamos fazer?"

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Ah, Vinícius...

Não!

Eu não os escrevo
Só para você
Estes azedos
Poemas

Mas aqueles
Onde você
Aparece
De uma
ou Outra
ForMa
São os mais belos
Quase doces

Queria escrevê-los
Transcrevê-los-ia
Domeueulírico
Todos
E muitos
Mais até
Passado, presente, futuro
Apenas para você
Mas a
Vida...
Ah, a vida

É melhor mesmo viver
Do que ser feliz
Ah, Vinícius...

Epa! Estemos longe, tia!

A vida
E os bichos
O universo
E eu também
Somos improváveis
Mas existimos
Eu acho

Existirá a
probabilidade?

Duvido da estatística
Duvido do
Conhecimento

Não duvido
Entretanto
Dos meus
Sentimentos

Por que eles
São tudo
Que há em
Mim

O que são os sentimentos?
O que sou?
O que faço?
O que pergunto?

Sócrates
Começa e termina
Toda a história
Da filosofia
E poesia

Só sei
Que nada sei