sábado, 22 de dezembro de 2007

Pena e inveja

Quem nasce na Europa
Tem a vida muito fácil
Anda sempre prosa
E nem almeja um maior salário

Quem nasce no Brasil
Mal tem onde cair duro
Sem muita educação, é imbecil
E tem que apostar sempre no futuro

Quem nasce na Europa
Não conhece a pobreza
Tem pão sempre na mesa
E em novos carros, galopa

Quem nasce no Brasil
Luta a vida inteira
E velho, na canseira
Trabalha ainda como operário

Quem nasce na Europa
Não conhece tapioca
Mas vive tranqüilamente
Todos, com uma vida decente

Quem nasce no Brasil
Abusa de qualquer ardil
Para tentar, humildemente
Ter a tal da vida decente

Mas quem nasce na Europa
Mal conhece o samba carioca
Não toma cachaça
Não se encanta com a mulata
E com o gingado da morena
Que pode até não rimar
Mas é lindo

Tenho pena e inveja
De quem nasce na Europa

O mineiro

O mineiro
Acordou faceiro
Numa manhã de Janeiro
Talvez Fevereiro
Olhou no relógio
E pensou num afã

São trêis da manhã:
Trêis da manhã é bão também

Hora de me levantá
Comer o pão
E pegar o trem
Pra í trabaiá
E ganhá meu vintém

O mineiro
Roceiro
Levantou
Comeu o pão
E cedo chegou
Na estação
Penseiro
Para pegar o trem
E cumprir a tradição

Trabalhou
O dia inteiro
O mineiro
Marceneiro
Trabalhou

Ao fim da tarde
Voltou pra casa
Bebeu cachaça
Comeu queijo
À mulher
Deu um gracejo
E à criança
Um beijo

Bebeu mais cachaça
Comeu mais quêjo
Fumou um pito
Cuidou do bicho
Cão de caça
Não de raça

Na manhã seguinte
Acordou novamente faceiro
O mineiro
E foi trabaiá
Pra mó de sustentá
A muié e o fio

Anos se passaram
E foi essa a rotina
Do mineiro de Diamantina
Que abusava do álcool,
Da nicotina
E da muié
Para viver aqueles amargos dias
De gente da ralé

Bordado de veludo azul

Perguntou-me se achava que poderia
Fazer de tudo
Oh minha bela,
Chame
A mim
Cabeçudo Mas
Penso que posso, sim
E farei
De tudo
Ou, ao menos, tentarei

Contudo
Claro está
Que nem em tudo
Vou me destacar
Sobretudo
Por que tempo não há
Para a tudo
Me dedicar
Seja através da experiência
Ou mesmo com estudo

Mas saiba
Que já me considero
Sortudo
Por aqui estar
Barbudo e
Barbado
Juntando versos, a rimar
Como quem tece um bordado
De veludo azul

Maré poética

O amar e o
Poesiar
São jogos
Que se aprendem jogando
Poesiando e amando
Tão logo se entende
Que amar é
Poesiar
E fazer é aprender

A maré da poesia
Aporta em meu mar
É barco a vela
Balança adverso
Predispõe à azia
Veleja a deriva
E desbunda o sonhar

E o leitor perverso
Navega comigo
Balança com as rimas
Pressente o perigo
Marujo virtual
, escute o que digo:
- Esquece teu umbigo
e vem navegar!

Primeiros versos

Tentei criar uns versos
Apenas como quem pratica
E também para o benefício
De leitores perversos
Que a eles olharão
Com cara de titica
E dirão: - Não presta
Como quem critica
Uma honesta canção

Verdade é que
Um poema depende
Não só
Do que há dentro da gente
Como também despende
Veja só
De uma rima que o anime
E lhe dê
Muito além do que se escreve
Um clima bem alegre

Aqui, então me despeço
Sabendo-me sozinho
Ermitão
Reconhecendo que tropeço
Mas
Seguindo de mansinho
Desimpeço
Sem supetão
O tortuoso caminho
Até alcançar o sucesso